Lincoln (2012)

Dessa vez um filme pra queimar a cabeça. Não no sentido existencial (rsrsrs), e sim político. Um filme mais complexo e denso, com muitos detalhes. Este é para assistir quando estiver com um alto nível de concentração, domingo depois da feijoada (vegetariana de preferência, rs) não dá!

Lincoln_1

Falarei sobre o filme Lincoln, do ano de 2012, dirigido por Steven Spielberg. Mas dessa vez vou fazer um post diferente. Tive que fazer uma reflexão sobre este filme para uma aula e escrevi um pequeno (nem tanto) texto colocando também algumas questões históricas e questões de mitos que ajudaram a formar o caráter nacional americano. Não vou colocar meu trabalho inteiro, pois tem muita coisa, mas vou tentar resumi-lo aqui no blog, ok? Espero que gostem, é interessante para refletirmos sobre os filmes que assistimos e o que exatamente aquele filme quer passar ? Qual a ideia ? O que está por detrás dos pensamentos de quem o fez? O que necessariamente querem que entendamos ?

Antes de começar com a minha análise queria dizer algo sobre a atuação do pessoal. Primeiro que Daniel Day-Lewis ganhou todos os prêmios possíveis como Melhor Ator (OSCAR, Globo de Ouro, BAFTA, SAG… infinito). Ele realmente foi espetacular, e também o foi Tommy Lee Jones no papel de Thaddeus Stevens e seus discursos sarcásticos na câmara. Mas queria destacar também as cenas com Lee Pace, ele é muito bom em fazer papel de cara presunçoso, prepotente, malvado… é ou não é? Gente, ele é o Ronan de Guardiões da Galáxia e o Thranduil de “O Hobbit”. Desde a Terra Média, passando pelas Guerras Americanas na história contemporânea, chegando até um futuro intergaláctico, ele é O CARA para fazer papel de petulante. Estava vendo as cenas dele como Fernando Wood e me perguntado: “Esse cara atua bem né ? Daonde eu conheço ele mesmo?”; Sem sucesso na minha busca pela “enciclopédia memorial” fui procurar no pai de todos os burros do cinema (IMDB). Quando descobri, pensei: “Noooooóoo, não acredito que ele é o Thranduil!”. Muito bom mesmo, acho que podemos esperar ele em grandes papeis e com esplendidas atuações, afinal ele é realmente um camaleão, dá uma olhada…

LEE_PACE

Demais, não ? Ahhh, eu adorei! Vou ficar de olho nele.

Bom, vamos para o meu texto de análise do filme então ? Antes, tenho que avisá-los que há alguns SPOILERS mas como se trata de um filme sobre um fato histórico dificilmente eu vou estragar o final, certo? rsrsrsrs. De qualquer forma achei melhor avisar que eu menciono partes do filme específicas, inclusive sobre o final. Também queria dizer que achei o filme muito bom, há umas fotografias interessantes, tem alguns momentos que eu achei que estava assistindo a um stop-motion do Tim Burton porque o Lincoln, alto e magro daquele jeito, com aquele chapelão, no meio da penumbra, me lembrou demais os personagens de “Noiva Cadáver”, e “O Estranho Mundo de Jack” hahahaha. Enfim, o filme, apesar dos apelos para mitos de heróis dos EUA e de toda essa euforia americana, ainda assim é muito interessante e com certeza traz informações úteis que irão agregar conhecimento a quem o assistir, além das ótimas atuações e de temas importantíssimos que devem ser repensados, refletidos devido ao seu imenso impacto na sociedade e que ainda reverberam atualmente, como o tema da escravidão.

Lincoln: A desconstrução do self-made man e seu papel como forja do caráter nacional americano.  

O filme analisado neste trabalho, Lincoln, nos mostra um pouco sobre a Guerra da Secessão, uma grade guerra civil americana que poderia por em risco toda a construção da nação americana a partir da União dos Estados. Existem vários filmes que mostram este conflito, mas este filme é focado na parte política da Guerra, mais precisamente na aprovação ou não aprovação da 13ª emenda à constituição.

Lincoln_3

O filme começa mostrando algumas características do presidente e de uma forma sutil já nos passa qual o foco desta história. Lincoln é mostrado como um homem humilde, um contador de histórias engraçadas, muito alto, em um dos primeiros diálogos um oficial branco pergunta a ele quanto ele tem de altura e depois tenta reproduzir o discurso feito por ele em Gettysburg; não consegue lembrar o final do discurso. Neste momento podemos ver como Lincoln serve de inspiração aos americanos, aquele homem simples que conta histórias divertidas para chegar a um determinado ponto.

Lincoln é a personificação do self-made man. Aquele homem que veio de família pobre, de pais analfabetos e que “se fez sozinho”, e se fez sozinho mesmo, pois era autodidata e chegou tão longe quanto possível, à presidência dos Estados Unidos. Segundo Barbosa (2006, p.44), o self-made man “trata-se do indivíduo que se fez sozinho, sem ajuda de amigos e parentes, que venceu todas as barreiras em virtude apenas de seus méritos pessoais”. Ainda segundo Barbosa (2006, p.44) “O herói norte-americano é basicamente um sujeito proativo, que age sobre a realidade, transformando-a e moldando-a de acordo com sua visão de mundo, e que se pauta por uma ética de assertividade pessoal. Não tem ajuda de ninguém, a não ser dos inferiores estruturais”.

Lincoln_2

Este filme ajuda a fortalecer esse ideário americano, apesar de fazer algumas críticas em poucas cenas, como quando Lincoln conversa com a governanta negra de sua casa e diz que poderia se acostumar com ela, e também voltando àquela primeira cena, havia um oficial negro também que questiona o fato de os soldados negros ganharem US$ 3, 00 a menos que os brancos, além de outros US$ 3,00 serem subtraídos para pagar pelo uniforme e “quem sabe em alguns anos os brancos aceitarão a ideia de tenentes e capitães negros, em 50 anos um coronel e em 100 anos, o voto”.

Apesar de esta cena ser uma pesada crítica e bem no começo do filme, passado isso, tudo da a entender que Lincoln é uma pessoa que está realmente lutando pela igualdade e liberdade de todos, e na verdade a prioridade dele era reestabelecer todos os Estados à União, ele não queria mais a nação fragmentada. Em um discurso no ano de 1858 quando disputava por sua vaga no Congresso, declarou: “[…] uma casa dividida contra si mesma não pode se manter. Eu acredito que este governo não pode se manter meio-escravista e meio-livre. Não espero que esta casa se divida – não espero que ela caia – mas espero que ela cesse de se dividir”.

Outro motivo por detrás desta ansiedade para aprovar a 13ª emenda era o fato de que os escravos atrasavam a economia do Norte que precisava de consumidores e não desta camada estática, dispendiosa e não consumidora. (TOTA, 2009, p. 74). Em nenhum momento o filme menciona estas intenções nortistas. Há um momento em que Lincoln conversa com Blair, fundador do partido republicano e este confirma que o partido um partido conservador, antiescravista, e não um “cavalo de pau para uns malditos abolicionistas radicais”, e um outro momento que questionam Lincoln por se aliar a abolicionistas radicais como Thaddeus Stevens, mas como é um filme muito denso e complexo politicamente, quem não fica atento a todos estes detalhes não percebe que Lincoln não se importava muito com a causa dos escravos, mas precisava dessa aprovação a emenda por outros motivos. Os que se importavam realmente, que viam os negros como iguais aos brancos eram estes abolicionistas radicais, eram eles que estavam preocupados com a abolição da escravidão de fato.

Outros momentos do filme também mostram como que, para os Estados Unidos a questão da defesa da Nação e de como há um orgulho quando se fala daqueles que conquistaram algo na vida por mérito próprio, é importante. Exemplos disso é o fato do filho mais velho de Lincoln querer ir para a Guerra por vontade própria, para pegar em armas e defender a nação. Como ele diz: “Eu tenho que fazer isso e eu vou Senão sentirei vergonha pelo resto da minha vida. Se você lutou ou não, é isto que conta. Não quero ser insignificante”. Ou quando a mulher de Lincoln conversa com Stevens sobre como teria sido um erro democrático a eleição de Lincoln já que eles eram simples demais para este cargo e, portanto inadequados para esta posição.

LINCOLN

Segundo Barbosa (2006, p. 44) o mito do self-made man era a base do “sonho americano” de mobilidade social vertical, na qual ser assalariado seria apenas um passo para atingir um objetivo e chegar a condição de proprietário, e este objetivo seria atingido por meio da dedicação ao trabalho, autodisciplina e moderação. Estes homens de virtudes aparecem quando há um desvio na sociedade norte-americana, recuperando os valores dos pais fundadores e relembrando os americanos sobre liberdade, democracia e justiça.

O filme é finalizado com a exitosa aprovação da 13ª emenda à constituição, seguida da morte de Lincoln e um discurso feito por ele mostrado em forma de memória, desejando o fim da guerra e a paz para todas as nações, desta forma imortalizando mais uma vez, este herói dos valores americanos.

Voltando ao começo do filme, a aquela cena com o oficial branco que não consegue lembrar o final do discurso de Lincoln em Gettysburg, este é finalizado pelo oficial negro que continua: “Que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta nação com a graça de Deus venha gerar uma nova liberdade e que o governo do povo, pelo povo, para o povo jamais desaparecerá da face da Terra”. Ele completa o discurso virando as costas para o Presidente, como se estivesse de certa forma, duvidando que isto fosse realizado. Quando o filme acaba com a aprovação da emeda e a outra parte do discurso de Lincoln, parece que tudo deu certo, o grande herói americano conseguiu transpor as barreiras e conquistar mais uma vitória.

Lincoln_1

É mais um filme que fortalece mitos americanos; mitos de heróis, homens virtuosos, que conseguem atingir seus objetivos com sucesso depois de muito batalhar e lutar arduamente, ajudando a reforçar o caráter nacional americano.

BIBLIOGRAFIA

TOTA, Antônio P. Os Americanos. São Paulo: Contexto, 2009.

BARBOSA, Livia. Igualdade e Meritocracia: A ética do desempenho nas sociedades modernas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

Os mitos fundadores. Disponível em: <http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/os-mitos-fundadores&gt;. Acesso em: 05, abril, 2015.

SPIELBERG, STEVEN. Lincoln. 2012        

Espero que tenham gostado, foi um post um pouco diferente mas também foi feito com muito carinho, dedicação e (muito) estudo hehehe. Faltou um pouco de contexto histórico, mas se eu colocasse o começo do meu trabalho (+2 páginas), vocês iam me matar, né ? Basta saber o seguinte sobre a Guerra da Secessão (e isso eu tirei também do livro do Tota):

“Os estados do Sul sempre foram cautelosos em relação à preservação da escravidão em seus territórios. Temiam que o governo federal agisse contra essa “Instituição peculiar”, tão vital à sua sobrevivência econômica. Majoritariamente ligados à produção de algodão, esses estados eram particularmente suscetíveis a oscilações no mercado de exportação. A determinação do Congresso de qualquer tarifa sobre o preço de bens manufaturados feria diretamente suas atividades, pois incitava barreiras protecionistas de seus compradores internacionais. Em 1828, o Congresso havia aprovado uma dessas tarifas, e as assembleias estaduais do Sul reagiram. Segundo princípios que consideravam constitucionais, defendiam o direito de cada estado de anular decisões federais caso fossem contrárias aos seus interesses.” (TOTA, 2009, p. 72)

Ah….”Lincoln Tim Burton” de brinde pra vocês. 😀

LINCOLN

 

IMDB: 7,4
Diretor: Steven Spielberg
Ano: 2012
Elenco: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, Sally Field, James Spader, Joseph Gordon-Levitt…

GENTEEEEEEEEEEEEEE, vocês nem precisam ver o filme.. vejam o trailer que vão entender TUDOOO o que eu falei… kkkkkk. Brincadeira! Vejam o filme sim, é ótimo,  mas o trailer é prova viva dos mitos dos pais fundadores, heróis americanos, que conseguem trespassar qualquer dificuldade por mais inatingível que pareça, em busca de um objetivo que venha trazer igualdade, liberdade para a NAÇÃO e, é lógico que isso não seria possível sem a figura deste grandioso ser que apesar, de sua origem simples, fez feitos inimagináveis, considerados até então impossíveis, mas tendo em mente o melhor para o povo e com trabalho árduo, ele venceu. Deboches a parte, é um filme bom… só tem esse pequeno detalhezinho a ser levado em consideração. 😛

 

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Sobre Bea
Beatriz Marques Fabri, 26 anos. Louca por filmes e TV Resolvi que deveria começar a escrever um blog para trocar idéias com as pessoas sobre filmes e seriados interessantes, dar algumas dicas e conversar sobre isso que é definitivamente o assunto que eu mais amo na vida !!! https://temqueassistir.com/

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